Mesmo com o K-conteúdo e a K-cultura em alta ao redor do mundo, o mercado doméstico coreano de plataformas de conteúdo passa por um momento de retração. A Kakao TV, serviço de vídeo, e a Blice, plataforma de webnovelas e webtoons da KT, encerraram operações em 30 de junho — um sinal de que empresas que não acompanharam as mudanças do setor estão sendo eliminadas.
A Kakao TV foi lançada em 2017 como tentativa da Kakao de expandir para além de mensageria e portais, apostando em transmissões pessoais. Já a Blice, criada pela KT em 2018, funcionava como uma ponte entre a cadeia de valor de conteúdo da operadora — descobrindo propriedades intelectuais originais para levá-las a canais de TV, IPTV e transmissão por satélite da própria KT.
Consumidores migraram para YouTube, Netflix e vídeos curtos
O problema, segundo análise do setor, foi a incapacidade de se diferenciar em um momento em que consumidores de conteúdo migraram para plataformas como YouTube, Netflix e Instagram, além do formato de vídeos curtos.
Além da falta de diferenciação, o baixo crescimento do mercado doméstico de conteúdo também é apontado como causa do fechamento sucessivo de plataformas. Em números absolutos, o setor cresceu: segundo pesquisa de 2025 do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, o faturamento da indústria de conteúdo coreana em 2024 somou 157,4 trilhões de wones, alta de 2,1% em relação ao ano anterior. Mas, descontada a inflação ao consumidor de 2,3% no mesmo período, o resultado representa, na prática, uma retração real.
O mercado de investimentos também não tem sido favorável ao setor. Segundo a TheVC, em apresentação no Fórum da Indústria de Conteúdo 2026 promovido pela Agência de Conteúdo Criativo da Coreia (KOCCA), o volume de investimentos em startups e pequenas e médias empresas de conteúdo caiu 90,5% entre 2022 e 2025, de 1,3073 trilhão de wones para 124,4 bilhões de wones. O número de rodadas de investimento também recuou, de 199 para 64 no mesmo período — e o capital que ainda entra no setor tem se concentrado em propriedades intelectuais de K-pop, plataformas de fandom e produtos licenciados (MD).
O apoio do governo também não acompanhou as mudanças do setor na mesma velocidade. O Ministério da Cultura, Esportes e Turismo anunciou um fundo de política de conteúdo de 731,8 bilhões de wones para este ano, alta de 22% em relação ao ano anterior e recorde histórico. Também existe um sistema de garantia para produtoras conseguirem financiar custos de produção. O problema, segundo especialistas, é que esse apoio está concentrado na etapa de produção, com pouco incentivo de longo prazo para que as empresas consigam manter a propriedade intelectual original e construir um ciclo de distribuição, retorno financeiro e reinvestimento.
O K-conteúdo é um ativo promissor, capaz de gerar fluxo de caixa de longo prazo e propriedade intelectual, mas cultura e finanças caminham separadas, o que mantém o setor em uma seca prolongada de investimentos.
Kim Jung-sup, presidente do Fórum Econômico Global de K-Cultura e professor da Universidade Sungshin


