Por que o cinema coreano é inigualável
O cinema sul-coreano não escolhe entre arte e entretenimento — ele exige os dois ao mesmo tempo. Em poucas décadas, uma indústria que passou por censura severa se tornou a mais criativa do mundo, produzindo diretores capazes de misturar horror, comédia, melodrama e crítica social dentro de um único filme sem que nada pareça forçado. A lista abaixo reúne dez obras que definem esse legado — em ordem, do imprescindível ao inesquecível.
1. Parasita (2019) — Bong Joon-ho
O primeiro filme não-anglófono a vencer o Oscar de Melhor Filme é também o mais preciso retrato da desigualdade social já colocado na tela. A história de uma família pobre que se infiltra na vida de uma família rica começa como comédia de costumes e termina como tragédia inevitável. Bong Joon-ho nunca aponta o dedo para nenhum dos lados — e essa ambiguidade moral é o que torna Parasita uma obra-prima absoluta.
FILME
Parasita
2019
Vencedor de 4 Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. Disponível na Apple TV+.
2. Oldboy (2003) — Park Chan-wook
Um homem é preso em um quarto por quinze anos sem saber o motivo. Quando é solto, começa a busca pela resposta — e o que encontra vai destruir tudo. Oldboy é o segundo capítulo da Trilogia da Vingança de Park Chan-wook e provavelmente o filme de gênero mais intelectualmente ambicioso dos anos 2000. Ganhou o Grande Prêmio do Júri em Cannes e mudou a forma como o mundo via o thriller asiático.
Filme
Oldboy
2003
Grande Prêmio do Júri em Cannes (2004). Um dos finais mais perturbadores da história do cinema.
3. Memórias de um Assassino (2003) — Bong Joon-ho
Baseado no caso real do primeiro assassino em série confirmado da Coreia do Sul — cujo paradeiro permaneceu desconhecido por mais de três décadas — este é o filme que revelou Bong Joon-ho ao mundo. Dois detetives com métodos completamente opostos investigam crimes que não conseguem resolver, e a impotência diante da realidade se torna o verdadeiro tema do filme. Uma obra sobre o fracasso da razão.
Filme
Memórias de um Assassino
2003
Considerado um dos melhores filmes de investigação já feitos. O caso real foi resolvido em 2019.
4. Trem para Busan (2016) — Yeon Sang-ho
O melhor filme de zumbis desde os anos de George Romero usa um trem-bala rumo a Busan como metáfora para o individualismo que destruiu a classe média coreana. Pai ausente e filho em perigo num mundo que acabou de colapsar: Yeon Sang-ho transforma um filme de gênero em uma meditação sobre paternidade e solidariedade. Emocionalmente devastador e de uma eficiência narrativa impecável.
5. A Hospedeira (2006) — Bong Joon-ho
Uma criatura monstruosa emerge do Rio Han depois que resíduos químicos americanos são despejados ilegalmente nas águas. O que vem a seguir é o filme de monstro mais politicamente engajado da história: a família tentando resgatar a filha capturada é constantemente atrapalhada por uma burocracia incompetente e um governo mais preocupado com relações públicas do que com vidas humanas. Bong Joon-ho em estado puro.
6. Eu Vi o Diabo (2010) — Kim Jee-woon
Um agente especial persegue o assassino da sua noiva — mas em vez de prendê-lo, decide prolongar seu sofrimento indefinidamente. O que começa como thriller de vingança evolui para uma investigação sobre o custo moral de se tornar o mal que você combate. É o filme mais perturbador desta lista, e talvez o mais honesto sobre o que a violência realmente faz com quem a pratica.
7. Burning (2018) — Lee Chang-dong
Baseado em um conto de Haruki Murakami, Burning segue um jovem escritor que reencontra uma garota da infância e conhece o misterioso homem rico que ela traz consigo. É um filme de três horas que opera no limiar entre o real e o fantástico, sobre a geração coreana que cresceu sem perspectivas em um país obcecado por riqueza. Um dos filmes mais elogiados de Cannes em décadas.
8. Oasis (2002) — Lee Chang-dong
Um ex-presidiário e uma mulher com paralisia cerebral desenvolvem um relacionamento improvável numa Seul que não tem lugar para nenhum dos dois. Lee Chang-dong subverte o melodrama coreano e entrega algo muito mais corajoso: um filme que trata seus personagens como seres humanos completos, não como vítimas nem como símbolos. Ganhou o Leão de Prata em Veneza e é um dos grandes filmes sobre amor e exclusão.
9. A Vida Amarga (2005) — Kim Jee-woon
Um assassino da máfia descobre que seu chefe quer eliminá-lo por uma razão trivial — e decide que não vai morrer sem antes destruir tudo. A Vida Amarga é visualmente o mais belo desta lista: Kim Jee-woon dirige como se cada frame fosse uma fotografia, e o resultado é um neo-noir impecável sobre lealdade, traição e a poesia estranha da violência. Lee Byung-hun em um de seus melhores papéis.
10. Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera (2003) — Kim Ki-duk
No lago mais silencioso do mundo, um monastério flutuante abriga um monge velho e seu aprendiz. O filme acompanha o ciclo de vida do aprendiz ao longo de décadas — cada estação representando uma fase — sem quase nenhum diálogo, apenas imagens de uma beleza que parece impossível. Kim Ki-duk raramente foi tão contido e tão profundo. Um filme que parece mais uma experiência contemplativa do que uma história.
Por onde começar
Se você está chegando agora, comece por Parasita — é o mais acessível e o que melhor apresenta o estilo coreano. Em seguida, Memórias de um Assassino e Trem para Busan são ótimas portas de entrada. Para explorar mais, vá direto a Lee Chang-dong: Burning e Oasis mostram um lado completamente diferente do cinema coreano — mais lento, mais literário, igualmente devastador.


