Em 2018, quando STRAY KIDS e ATEEZ fizeram debut com semanas de diferença, poucos previam que esses dois grupos definiriam o tom de uma nova era do K-Pop. Não porque tivessem o maior orçamento ou a agência mais poderosa — a JYP e a KQ Entertainment são sólidas, mas não a HYBE ou SM. Mas porque carregavam algo diferente: uma identidade artística construída de dentro para fora, com membros que escreviam e produziam desde o primeiro dia.
A quarta geração não tem data de início universalmente acordada — o mercado costuma situar entre 2018 e 2020. O que a define não é um grupo específico, mas um conjunto de características que distingue esses artistas dos predecessores: globalidade desde o debut, participação criativa dos membros como norma, e uma relação com o fandom que opera em múltiplas plataformas simultaneamente.
O que a quarta geração herdou
A terceira geração — BTS, BLACKPINK, TWICE, EXO — abriu portas que a quarta geração atravessa sem precisar provar nada. O BTS demonstrou que um grupo coreano podia dominar o Billboard, fazer shows em estádios nos Estados Unidos e ser convidado para discursar na ONU. A BLACKPINK mostrou que girl groups podem ter relevância cultural equivalente aos boy groups no mercado ocidental. A quarta geração estreou em um mercado já globalizado.
Isso criou uma mudança de pressão. Grupos da segunda e terceira geração gastaram anos construindo base internacional a partir de zero — turnês asiáticas, mercado japonês, YouTube. Grupos da quarta geração têm fanbases globais formadas antes do primeiro comeback. ENHYPEN, ATEEZ e ITZY tinham seguidores em dezenas de países antes de completar um ano de atividade.
Os principais grupos da quarta geração
No lado masculino, a quarta geração tem nomes que dominam diferentes fatias do mercado. STRAY KIDS (JYP, 2018) é o grupo mais associado a autoria — o 3RACHA, subunidade formada por Bang Chan, Changbin e Han, produz e escreve a maioria do repertório do grupo. ATEEZ (KQ, 2018) é conhecido pela energia de palco, por conceitos cinematográficos e por uma narrativa de lore elaborada. TXT (HYBE, 2019) explora temas de adolescência e alienação em álbuns conceitualmente densos.
No lado feminino, a fragmentação é mais acentuada. ITZY (JYP, 2019) popularizou a estética bold e o anti-cute concept. aespa (SM, 2020) introduziu o conceito de metaverso com as "ae" — versões digitais das integrantes — e uma lore elaborada. IVE (Starship, 2021) apostou em estética elegante e conceitos menos complexos com resultado comercial imediato. NewJeans (ADOR/HYBE, 2022) foi a ruptura mais radical — sem era de trainee pública, com estética Y2K e lançamentos sem o formato convencional.
O TikTok e a nova lógica de descoberta
A terceira geração foi construída no YouTube. A quarta geração é descoberta no TikTok. A diferença parece pequena, mas é estrutural. No YouTube, um MV acumula views ao longo do tempo — o engajamento pode ser sustentado por semanas. No TikTok, um trecho de 15 segundos pode viralizar globalmente em 48 horas ou desaparecer completamente. O K-Pop da quarta geração precisou adaptar o formato musical para esse contexto.
Os MVs ficaram mais curtos ou com ganchos mais imediatos. Os point choreographies — trechos de coreografia fáceis de replicar — viraram estratégia deliberada. "Hype Boy" do NewJeans e "Tomboy" do (G)I-DLE explodiriam no TikTok não por acidente, mas porque foram construídas com esse vetor em mente. A linha entre viral orgânico e marketing planejado ficou indistinguível.
A participação criativa como expectativa
O que o BTS normalizou na terceira geração — membros como compositores e produtores — a quarta geração trata como ponto de partida. STRAY KIDS é o caso mais extremo: praticamente todo o catálogo é escrito e produzido pelos membros. Mas mesmo grupos sem esse nível de envolvimento têm pelo menos um membro creditado em composição — a expectativa do fandom mudou.
Isso criou um novo tipo de pressão sobre as agências. Um grupo que lança música que os membros não escreveram enfrenta questionamentos que não existiam dez anos atrás. A autenticidade — percebida ou real — virou ativo de marketing tão importante quanto o talento técnico de dança e vocal.
Por que domina agora
A quarta geração domina o mercado atual por uma combinação de fatores: a janela aberta pelas gerações anteriores, a infraestrutura de streaming global maturada, o crescimento do TikTok como plataforma de descoberta, e — em partes — o afastamento temporário do BTS pelo serviço militar. Com o grupo mais dominante da terceira geração fora de atividade entre 2022 e 2025, o espaço de atenção global ficou disponível para ser conquistado.
Grupos como STRAY KIDS e ATEEZ preencheram esse espaço com turnês de estádio que seriam improváveis para artistas do porte das agências que os representam em eras anteriores. O K-Pop da quarta geração não precisa de um BTS para abrir portas — as portas estão abertas. O desafio agora é construir longevidade, não apenas debut impact.
O subgrupo que ninguém esperava: o feminino "soft" reage
Enquanto ITZY e aespa apostaram em estéticas mais duras, a segunda metade da quarta geração viu uma reação na direção contrária. LE SSERAFIM (Source Music/HYBE, 2022) e NMIXX (JYP, 2022) chegaram com identidades que misturam força e vulnerabilidade no mesmo conceito — uma resposta direta à fadiga de tanto "girl crush" homogêneo que dominou 2019-2021. O NMIXX, em particular, ficou conhecido pelo uso de mixpop, técnica de produção que muda o gênero musical dentro da mesma faixa sem aviso — algo impensável na estrutura mais previsível de verso-refrão-ponte da terceira geração.
Isso não é só inovação estética por inovação. É resposta a um mercado que, com tanto conteúdo, precisa de ganchos discursivos para se diferenciar nas conversas do fandom e da imprensa especializada. Um conceito "seguro" não vira matéria; uma escolha de produção radical, sim — mesmo que divida opinião.
A quarta geração não compete apenas por streams. Compete por ângulo de conversa — e isso mudou como as músicas são estruturadas desde o primeiro verso.
O modelo de subunidades como estratégia de sobrevivência de atenção
Outra marca distintiva da quarta geração é a multiplicação de subunidades e atividades individuais como estratégia deliberada, não acidente de carreira. STRAY KIDS tem o 3RACHA (produção) e diversos projetos individuais dos membros. ENHYPEN, TXT e ATEEZ seguem padrão parecido — cada membro acumula conteúdo individual (variety shows, covers, lives) entre comebacks oficiais do grupo principal.
Essa fragmentação de atenção em múltiplos formatos simultâneos é resposta direta ao algoritmo do TikTok e do YouTube Shorts, que recompensa volume e frequência de postagem, não só qualidade de produção de um MV isolado. Um grupo da terceira geração podia sobreviver com 2-3 lançamentos grandes por ano. A quarta geração precisa de presença quase contínua — challenges de dança, covers, vlogs, lives no Weverse — para manter o algoritmo alimentado entre eras musicais.
A geração que nasceu sabendo que seria comparada ao BTS
Há uma pressão específica da quarta geração que nenhuma geração anterior enfrentou: debutar já sabendo que vai ser medida pela régua que o BTS estabeleceu. Isso criou dois caminhos distintos. Alguns grupos, como STRAY KIDS e TXT — ambos da órbita HYBE —, abraçaram a comparação e construíram carreira em paralelo, quase como "herdeiros" implícitos do legado de internacionalização. Outros, como ATEEZ e aespa, construíram identidade deliberadamente distante do modelo BTS, evitando a comparação direta ao apostar em estética e conceito muito diferentes.
Nenhuma das duas estratégias é claramente superior — os números de vendas e bilheteria de turnê mostram sucesso comercial nos dois grupos de casos. O que fica claro é que a quarta geração não tem o luxo que a terceira teve de construir identidade sem standard de comparação global pré-existente. Cada decisão de conceito acontece à sombra de um modelo de sucesso que já está estabelecido.
O fim da era "uma geração, um modelo dominante"
Diferente da segunda geração (dominada pelo modelo SM de trainee longo) ou da terceira (dominada pela ascensão do BTS como case único), a quarta geração não tem um modelo de sucesso único a seguir. Isso é, paradoxalmente, tanto liberdade quanto pressão: mais espaço para experimentação, mas nenhum mapa pronto de "o que funciona".
O que vem depois: sinais da quinta geração
Conversas sobre uma "quinta geração" já começaram entre analistas de indústria, geralmente associada a debuts de 2023 em diante — grupos como RIIZE (SM), BABYMONSTER (YG) e ZEROBASEONE (formado por survival show). O que distingue essa leva ainda é matéria de debate: alguns argumentam que é apenas uma continuação da quarta geração sem ruptura suficiente para justificar nova nomenclatura; outros apontam para o uso mais agressivo de IA generativa em produção musical e marketing como ponto de virada real.
O que é certo é que a velocidade de mudança só acelera. Se a terceira geração levou cerca de uma década para amadurecer e ceder espaço, a quarta geração já enfrenta pressão de renovação em prazo bem mais curto — sintoma de uma indústria que, cada vez mais, mede tudo em ciclos de atenção de semanas, não de anos.
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