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Produce 101: o reality que reformatou o k-pop

Quatro temporadas, grupos icônicos e um escândalo que abalou a indústria. Tudo sobre o Produce 101 e seu legado no k-pop.

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Redação HallyuHub
14 de abril de 202614 min de leitura1 views
Produce 101: o reality que reformatou o k-pop

Em janeiro de 2016, a Mnet estreou um programa que parecia mais um experimento do que uma aposta consolidada: Produce 101 (프로듀스 101). A premissa era simples e ao mesmo tempo ambiciosa — 101 trainees de diferentes agências competiriam ao vivo, semana após semana, com o público votando para decidir quais 11 delas formariam um grupo temporário. Não havia precedente direto para esse formato no k-pop. Grupos de idol eram formados dentro das agências, por decisão dos executivos, após anos de treinamento fechado e avaliações internas. A ideia de colocar esse processo em público, em tempo real, com voto popular definindo o resultado, era uma ruptura com a lógica que havia dominado a indústria desde o surgimento do k-pop moderno nos anos 1990.

O que ninguém previu — nem a Mnet, nem as agências participantes, nem os próprios trainees — foi a escala do que viria a seguir. Produce 101 não foi apenas um sucesso de audiência. Foi o início de um formato que dominou o entretenimento coreano por quatro anos consecutivos, gerou grupos que venderam dezenas de milhões de cópias ao redor do mundo, e terminou em um dos maiores escândalos de manipulação de votos da história da televisão sul-coreana — com produtores condenados criminalmente e grupos dissolvidos antes de completar um ano de atividade. Essa é a história completa da franquia que reformatou o k-pop e ainda ecoa profundamente no setor hoje.

EmissorMnet (CJ ENM)
Temporadas4 (2016–2019)
Grupos formadosI.O.I, Wanna One, IZ*ONE, X1
Formato101 trainees → 11 finalistas por voto público
EscândaloManipulação de votos confirmada (2019)
LegadoWanna One: 8,5M cópias vendidas

O contexto: por que o k-pop precisava desse formato

Para entender por que o Produce 101 funcionou da forma que funcionou, é preciso entender onde o k-pop estava em 2015 e 2016. A indústria havia passado por uma expansão significativa na primeira metade dos anos 2010, impulsionada pelo sucesso global de grupos como Girls' Generation, EXO, BTS e BIGBANG. O mercado coreano de idol estava saturado de grupos que estreavam com pouca diferenciação, e o modelo tradicional de debut — agência anuncia grupo, grupo lança single, grupo tenta construir fanbase do zero — estava com retornos decrescentes para agências de médio porte. As grandes casas (SM, YG, JYP) conseguiam sustentar debuts custosos porque tinham capital e distribuição. As menores tinham trainees investidos mas poucos recursos para construir o reconhecimento necessário para um debut relevante.

Foi nesse contexto que a Mnet, canal especializado em música da CJ ENM, desenvolveu o conceito do Produce 101. A ideia central era transferir para o público a decisão que historicamente pertencia aos executivos: quem merece debutar. Do ponto de vista das agências pequenas, era uma oportunidade de exposição nacional para seus trainees sem o custo de um debut completo. Do ponto de vista da Mnet, era conteúdo com suspense genuíno, atualizado semanalmente, com uma audiência que tinha razões concretas para continuar assistindo — seus votos determinavam o resultado. A fórmula era nova, mas os ingredientes não eram: competição, escolha do público, narrativas pessoais e música. O que a Mnet fez foi combinar esses elementos de uma forma que o k-pop nunca havia testado em escala.

Temporada 1 (2016): o experimento que funcionou

A primeira temporada do Produce 101 foi feminina e centrada em agências pequenas e médias. As grandes — SM, YG, JYP — não participaram, o que na época parecia uma limitação do formato. O resultado foi o oposto: sem o peso dos grandes nomes, o público se conectou com trainees desconhecidas e o processo de votação se tornou genuinamente imprevisível. A vencedora mais votada, Choi Yoo-jung, era de uma agência pequena chamada Fantagio. O grupo formado, I.O.I (아이오아이), estreou com Crush e Dream Girls e gerou um nível de histeria de fãs que surpreendeu até os executivos da Mnet. Em menos de um ano de atividade — porque o grupo era temporário por design — vendeu mais de 200 mil cópias do EP de estreia, Chrysalis.

A mecânica do programa foi tão importante quanto o conteúdo. Cada episódio mostrava os trainees em avaliações, batalhas de performance e momentos de bastidores cuidadosamente editados para criar arcos emocionais. O público votava online entre os episódios, e os rankings eram revelados em tempo real no programa, com trainees eliminados à vista de todos. Esse formato criou um ciclo de engajamento semanal diferente de qualquer outro programa de variedades coreano: os fãs não apenas assistiam, eles agiam, discutiam estratégias de voto em fóruns e formavam comunidades organizadas em torno de candidatas específicas. O vocabulário dessas comunidades — 'nacional produtor', o termo para o eleitor do programa — se tornou parte do léxico k-pop.

O I.O.I funcionou por uma razão que o formato revelou pela primeira vez em escala: quando o público investe na jornada de formação de um grupo, o vínculo emocional com o resultado é qualitativamente diferente do que se constrói com um grupo cujo debut foi anunciado pela agência. Cada voto dado durante o programa é um ato de investimento afetivo. A vitória do grupo não é apenas o debut de uma idol — é a vitória do próprio fã, que participou do processo e contribuiu para o resultado. Esse mecanismo de engajamento foi o que a Mnet descobriu em 2016 e que iria explorar ao máximo nas temporadas seguintes. O conceito de 'nacional produtor' não era apenas um título — era uma identidade que conferia responsabilidade e pertencimento.

Produce 101
2016
K-Drama

Produce 101

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FATO

O I.O.I foi o primeiro grupo de idol formado por voto popular em tempo real no k-pop. Suas 11 membros voltaram às agências de origem após cerca de um ano, mas muitas seguiram carreiras sólidas — Chungha, por exemplo, tornou-se uma das solistas mais bem-sucedidas do k-pop dos anos 2020. Kim Sejeong seguiu no Gugudan antes de virar atriz reconhecida. Pinky estreou no PRISTIN.

Temporada 2 (2017): Wanna One e o pico da franquia

A segunda temporada mudou o gênero — desta vez masculino — e confirmou que o formato não tinha sido sorte de estreia. Produce 101 Season 2 foi um fenômeno ainda maior que o original. Com participantes de agências maiores e médias e uma base de fãs femininas mobilizada como nunca, os episódios quebraram recordes de audiência no cabo coreano e o sistema de votação travou múltiplas vezes pela quantidade de acessos simultâneos. O grupo formado, Wanna One (워너원), estreou em agosto de 2017 com Energetic — e o MV atingiu 10 milhões de visualizações em menos de 24 horas, um recorde expressivo para a época. A pré-venda do álbum de estreia, 1X1=1 (To Be One), vendeu mais de 400 mil cópias antes do lançamento.

O sucesso da Season 2 foi impulsionado pela qualidade dos participantes. Kang Daniel, que terminou em primeiro lugar, tinha uma combinação rara no k-pop masculino da época: presença de palco de dançarino principal, personalidade carismática e uma narrativa de backstory — ele havia trabalhado em uma pet shop antes de entrar no treinamento — que ressoou com fãs de formas distintas. Park Jihoon, que terminou em segundo, era praticamente desconhecido antes do programa mas viralizou com um momento de 'wink' que se tornou um dos memes mais compartilhados do k-pop de 2017. Lai Guanlin, um trainee taiwanês, demonstrou como o formato tinha se tornado relevante além das fronteiras coreanas. A Season 2 não apenas repetiu o sucesso da primeira temporada — ela o amplificou em todas as dimensões.

O Wanna One foi um caso raro no k-pop: um grupo com prazo de validade predefinido que, mesmo assim, construiu uma fanbase de nível de grupo principal de grandes agências. Em menos de dois anos de atividade — com um hiato obrigatório para serviço militar de alguns membros mais velhos e restrições contratuais das agências de origem — vendeu mais de 8,5 milhões de cópias de álbuns, realizou uma turnê mundial que passou por múltiplos países e gerou carreiras solo de longo prazo para membros como Kang Daniel, Park Jihoon e Ha Sungwoon. O modelo de 'grupo temporário com data de encerramento' provou que o k-pop podia funcionar com uma lógica de série limitada, não apenas de carreira indefinida — e que a limitação no tempo, paradoxalmente, intensificava o engajamento dos fãs, que sabiam que cada comeback era um dos últimos.

DADOS

Wanna One vendeu 8,5 milhões de cópias de álbuns em menos de 2 anos de atividade — mais do que a maioria dos grupos permanentes de agências médias consegue em toda a carreira. O grupo encerrou as atividades em dezembro de 2018, conforme o contrato original previa.

Produce 48 (2018): o experimento japonês

A terceira temporada foi a mais experimental: Produce 48 cruzou o formato coreano com o AKB48, o maior e mais influente grupo de idol japonês, colocando trainees coreanas e membros do AKB48 e suas grupos-irmãs em competição pela mesma formação final. O conceito era ambicioso — um grupo que representaria simultaneamente os dois maiores mercados de idol da Ásia, operando em coreano e japonês. Do lado coreano, havia trainees de diversas agências, incluindo algumas caras conhecidas de programas anteriores. Do lado japonês, havia membros do AKB48, SKE48, NMB48 e HKT48, cada uma com bases de fãs consolidadas no Japão. A diferença cultural entre os dois sistemas de idol ficou evidente nas primeiras semanas: as japonesas tinham experiência de performance distinta, com estética diferente, e a comunicação entre os grupos foi um arco narrativo central da temporada.

O resultado foi *IZONE** (아이즈원), um grupo coreano-japonês com 12 membros — 9 coreanas e 3 japonesas — que, apesar da complexidade logística de operar em dois países com agendas distintas, tornou-se um dos grupos femininos mais populares do período 2018–2021. La Vie en Rose, o debut single, é até hoje um dos temas mais reconhecíveis do k-pop feminino da segunda metade dos anos 2010. O álbum de estreia COLORIZ vendeu mais de 200 mil cópias. A combinação de mercados funcionou comercialmente: o IZ*ONE tinha base de fãs significativa tanto na Coreia quanto no Japão, permitindo atividades simultâneas nos dois países — álbuns em japonês, turnês locais, aparições em programas de variedades dos dois lados.

Produce 48
2018
K-Drama

Produce 48

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O Produce 48 também foi a temporada onde as primeiras suspeitas de manipulação começaram a circular com mais força e organização entre os fandoms. Resultados de eliminação que contradiziam tendências de votação visíveis, discrepâncias numéricas nos totais divulgados entre episódios, e padrões estatisticamente improváveis nos votos finais foram apontados por fãs em fóruns online coreanos e internacionais. Análises estatísticas amadores, publicadas no Reddit e em blogs de k-pop, tentavam identificar inconsistências nos números. A Mnet negou irregularidades e atribuiu as discrepâncias ao sistema de contagem. Dois anos depois, o sistema inteiro desmoronaria com a força de uma investigação policial.

Produce X 101 (2019) e o colapso

A quarta temporada, Produce X 101, formou o grupo X1 (엑스원) em julho de 2019. A 'X' no nome era uma referência ao conceito da temporada — a ideia de que o grupo seria algo além das fórmulas anteriores. O X1 debutou com Flash em agosto de 2019 e vendeu mais de 400 mil cópias do álbum 비상: QUANTUM LEAP em pré-venda — a primeira semana de vendas mostrava que o grupo tinha potencial para acompanhar o sucesso do Wanna One. Mas antes do grupo lançar seu primeiro álbum completo, a investigação policial sul-coreana que havia sido aberta após denúncias anônimas começou a produzir resultados concretos. O que se confirmou foi chocante: produtores e executivos da Mnet tinham manipulado os resultados de todas as quatro temporadas do Produce — incluindo as duas primeiras, que geraram o I.O.I e o Wanna One.

Os detalhes da manipulação, revelados no processo criminal, eram sistemáticos. Não se tratava de ajustes marginais nos resultados — os produtores alteravam votos para trainees específicos de acordo com critérios que nunca foram completamente esclarecidos publicamente, mas que provavelmente envolviam acordos com agências, preferências editoriais da Mnet e considerações sobre a composição final do grupo. Trainees que tinham votos suficientes para entrar na formação final foram removidos. Trainees que não atingiram os votos necessários foram mantidos. O processo todo — que durante quatro anos foi apresentado ao público como o mecanismo central de um programa baseado na 'vontade do nacional produtor' — era, em parte, uma ficção.

Produce X 101
2019
K-Drama

Produce X 101

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Os produtores responsáveis foram condenados criminalmente pela Justiça sul-coreana. Ahn Joon-young, o produtor principal da franquia, recebeu pena de prisão. O X1 foi dissolvido em janeiro de 2020, apenas seis meses após o debut — sem ter lançado um álbum completo de estúdio. Os membros retornaram às suas agências de origem, mas a dissolução forçada, em circunstâncias tão específicas, prejudicou a trajetória de todos. O IZ*ONE, que também foi afetado pela investigação — vários membros constavam entre os que poderiam ter sido manipulados para dentro ou para fora da formação —, continuou ativo mas com a legitimidade do processo de formação permanentemente questionada. O grupo encerrou as atividades em abril de 2021, conforme o contrato original previa, sem extensão.

FATO

A investigação policial confirmou manipulação nas quatro temporadas do Produce 101. Os produtores da Mnet foram condenados criminalmente. O X1 foi dissolvido em janeiro de 2020, seis meses após o debut. O escândalo é um dos maiores já registrados na história da televisão sul-coreana e gerou debate estrutural sobre transparência em programas de voto público.

O impacto humano mais invisibilizado do escândalo foi sobre os trainees que foram manipulados para fora dos grupos. Essas pessoas — identificadas pela investigação como as vítimas mais diretas da fraude — investiram anos de treinamento, participaram do processo, acumularam fandoms durante o programa, e foram excluídas por uma decisão que não tinha nada a ver com votação. Alguns tentaram debutar após a revelação do escândalo e conseguiram: Kim Woo-seok, do X1, entrou no TOP6. Outros nunca encontraram uma abertura equivalente. A indústria não criou nenhum mecanismo formal de reparação para esses casos.

O legado: o que o Produce 101 deixou no k-pop

Apesar do colapso, o legado do Produce 101 na estrutura do k-pop é inegável e permanente. O formato de survival com voto público se tornou o modelo padrão para debuts de novos grupos — I-LAND (ENHYPEN, 2020), Girls Planet 999 (Kep1er, 2021) e Boys Planet (ZEROBASEONE, 2023) são herdeiros diretos do modelo Produce, com ajustes de transparência que tentam evitar a repetição do escândalo — incluindo auditoria externa de votos e maior divulgação dos totais em tempo real. A ideia de que o público pode participar da formação de um grupo deixou de ser experimento e virou expectativa de mercado para um segmento inteiro do k-pop.

O formato também transformou como as agências pensam sobre lançamento de novos grupos. Antes do Produce 101, o único caminho era o debut direto — investimento total de uma agência em um grupo que poderia ou não encontrar audiência. Depois do Produce 101, o survival show se tornou uma alternativa viável: exposição nacional (ou internacional), construção de fanbase durante o processo, e debut de um grupo que já tem histórico de votação como prova de interesse público. Mesmo agências que nunca participaram da franquia Mnet passaram a lançar seus próprios formatos de survival para debuts, de escala menor mas com a mesma lógica. O Produce 101 não apenas criou grupos — criou um novo paradigma de como grupos são criados.

Em termos de carreiras individuais, os grupos do Produce 101 foram trampolins extraordinários para dezenas de artistas. Chungha (I.O.I) construiu uma das carreiras solo mais consistentes e artísticamente corajosas do k-pop feminino dos anos 2020, com projetos que desafiam categorização fácil. Kang Daniel (Wanna One) foi o idol masculino mais seguido no Instagram por vários meses consecutivos após o encerramento do grupo, antes de uma série de disputas contratuais com a agência de origem. Ha Sungwoon construiu uma carreira solo sólida em k-pop adulto. Do IZONE, membros como Jang Wonyoung e An Yujin vieram a formar o IVE — um dos grupos femininos mais bem-sucedidos comercialmente do k-pop atual, com múltiplos hits e prêmios de artista do ano. Miyawaki Sakura, também do IZONE, retornou ao Japão, participou do Produce 101 Japan e depois debutou no LE SSERAFIM.

O Produce 101 é um caso de estudo perfeito sobre como o entretenimento coreano funciona em seus extremos: a capacidade de criar conexão emocional em escala industrial, a velocidade com que um formato pode se tornar hegemônico em poucos anos, e a fragilidade ética de um sistema onde os incentivos financeiros são grandes o suficiente para que a tentação de manipular supere o risco de ser descoberto. O k-pop que existe hoje — com seus programas de survival, seus grupos formados por voto, seus debuts assistidos por milhões antes mesmo do lançamento do primeiro single — tem o DNA do Produce 101 em cada camada. O escândalo revelou os custos humanos desse sistema. O formato sobreviveu ao escândalo. Ambas as coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e entender essa tensão é entender como a indústria funciona. Para descobrir os grupos e artistas que vieram dessa era, explore o catálogo completo de grupos no HallyuHub.