RM, líder do BTS, concedeu ao podcast "Fashion Neurosis", da estilista britânica Bella Freud, uma das entrevistas mais pessoais de sua carreira — a primeira vez que participa de um podcast —, abordando desde os sacrifícios da família até sua evolução como líder do grupo, moda, literatura e arte.
“Meu pai queria desenhar quadrinhos, mas, naquela época, na Coreia, éramos muito pobres, não tínhamos nada. Então minha avó o impediu de fazer o que ele realmente queria”, contou RM. "Minha mãe era professora, então acho que..."
Como o próprio pai não conseguiu seguir uma carreira criativa, RM afirmou que ele apoiou de coração a decisão do filho de se tornar músico. “Meu pai tinha essa vontade intensa por algo além dos estudos e de um emprego convencional. Por isso, ele foi realmente muito favorável ao que eu estava tentando fazer, que era música”, disse RM. Já sua mãe oferecia uma perspectiva diferente: "ela sempre tentava me dar estabilidade, dizendo para eu não me desafiar demais, para ficar na zona segura." Descrevendo a si mesmo como "um pequeno ponteiro de relógio indo e vindo" entre as visões contrastantes dos pais, RM afirmou que a experiência lhe ensinou a importância do equilíbrio.
"Fui um líder arrogante" nos primeiros anos
RM também fez uma confissão rara sobre sua trajetória à frente do BTS: "nos primeiros oito ou nove anos, fui um líder muito forte e um tanto arrogante." Segundo ele, esse estilo mais autoritário deixou de funcionar à medida que o grupo ganhou projeção e cada integrante passou a desenvolver carreira própria fora das atividades coletivas — o que o levou a mudar completamente a forma de se comunicar com os colegas.
Para descrever o que significa liderar, RM recorreu a uma metáfora: "um líder é assim: todo mundo está deitado no sofá, a janela está aberta e está frio, então alguém precisa fechá-la. Ninguém quer, porque é confortável demais ficar deitado no sofá. Se uma única pessoa precisa se levantar e andar alguns passos para fechar a porta, acho que é isso que um líder faz." Ele descreveu ainda a recompensa emocional de liderar: quando os integrantes demonstram gratidão, "todo o estresse que carreguei desaparece" — motivação que ele resume como "a beleza do time".
Da vitrine da Rick Owens a "WINGS"
RM também relembrou o momento em que, em 2014, visitou pela primeira vez uma loja da grife Rick Owens em Seul — um episódio que ele descreve como decisivo para sua relação com a moda. “Eu não tinha dinheiro, não conseguia comprar nenhuma peça da Rick. Foi a primeira vez que senti uma espécie de síndrome de Stendhal por roupas. Percebi, pela primeira vez, que uma cor chamada preto podia ser tão variada assim”, contou.
Na literatura, o romance "Demian", de Hermann Hesse, moldou sua visão de mundo ainda na adolescência e, mais tarde, se tornou uma das bases conceituais do álbum "WINGS" (2016), do BTS — mesmo RM só tendo visitado um museu de arte de verdade em 2018, quando o colega de grupo V o apresentou ao universo das artes visuais, depois de já ter construído a estética do álbum a partir apenas da imaginação literária.
Sobre suas escolhas artísticas mais recentes, incluindo seu trabalho solo, RM refletiu: "às vezes, um idioma ou uma única palavra pode definir todo o seu mundo. Minha obsessão com a palavra 'normalidade' foi uma das melhores formas que encontrei de me afastar dela." Ele também descreveu sua identidade como uma espécie de "vida disfarçada", equilibrando persona pública e identidade privada: "quando eu tinha vinte e poucos anos, achava que devia ter uma só marca, ser descrito por uma única característica. Com o tempo, percebi que um ser humano e uma identidade são sempre algo muito mais complexo — tudo é feito de contradições e dualidades."
Álbum solo sobre romper a tensão constante
Sobre seu álbum solo de 2024, "Right Place, Wrong Person", RM disse ter buscado mais leveza e "romper com a tensão constante", tratando da sensação de deslocamento que atinge muita gente na sociedade contemporânea. O artista também comentou o incômodo com a cultura dos vídeos curtos, como Reels e Shorts, descrevendo o ritmo incessante desse formato como uma pressão por produtividade constante que, em suas palavras, "assusta" quando pensa nos rumos da sociedade atual — um desconforto que ele contrabalança com imersão na natureza e consumo de cultura mais lenta, como cinema e literatura.
RM também mantém uma extensa coleção de arte coreana contemporânea e prepara uma exposição em parceria com o San Francisco Museum of Modern Art (SFMOMA), reunindo obras de artistas coreanos e ocidentais.
Um líder é assim: todo mundo está deitado no sofá, a janela está aberta e está frio, então alguém precisa fechá-la. Se uma única pessoa precisa se levantar para fechar a porta, acho que é isso que um líder faz.
RM, do BTS, sobre sua visão de liderança
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