O sistema de trainee é a infraestrutura que sustenta a indústria do K-pop desde meados dos anos 1990. A lógica central é direta: gravadoras recrutam jovens antes do debut, investem em anos de treinamento técnico e artístico, e recuperam o investimento via vendas de álbuns, contratos de publicidade e receitas de shows. Lee Soo-man, fundador da SM Entertainment, formalizou o modelo em 1995 ao estruturar o processo de formação do H.O.T — o primeiro grupo a passar por ciclo completo de treinamento antes do debut, em setembro de 1996. Desde então, HYBE, JYP, YG e dezenas de gravadoras menores replicaram e refinaram o processo.
O que distingue o sistema coreano de equivalentes ocidentais não é a existência de contratos de desenvolvimento — selos americanos e europeus também firmam acordos com artistas em formação — mas a escala, a intensidade e a estrutura de débito. Um trainee típico treina entre dois e seis anos antes de ser considerado apto ao debut, cobrindo dança, canto, rap, idiomas (japonês, inglês e mandarim são prioritários), atuação e etiqueta midiática. Segundo estimativas divulgadas em entrevistas ao Korea JoongAng Daily, o investimento acumulado de uma gravadora de grande porte em um trainee pode ultrapassar ₩ 3 bilhões — aproximadamente US$ 2,3 milhões — até o debut do grupo.
BTS em fan meeting fora dos estúdios do Music Bank, setembro de 2014 — o grupo é um dos exemplos mais citados de variação no período de treinamento entre membros. Crédito: Wikimedia Commons / CC BY 4.0O Processo de Seleção
As gravadoras mantêm programas de audição permanentes em múltiplos formatos. A SM Entertainment conduz suas Global Auditions em cerca de 30 países anualmente, aceitando candidatos entre 8 e 20 anos. A HYBE opera o Weverse Audition em formato digital desde 2021, permitindo que candidatos enviem vídeos sem presença física em Seul. A JYP Entertainment realiza audições presenciais na Coreia, Japão e Estados Unidos com etapas eliminatórias separadas por habilidade: dança, canto e apeelo — termo interno que designa carisma natural e presença de câmera, avaliados subjetivamente pelos diretores de A&R.
O critério de seleção não é exclusivamente técnico: gravadoras buscam potencial de desenvolvimento, não habilidade imediata. Jackson Wang (GOT7) foi selecionado pela JYP sem experiência formal em canto ou dança — a gravadora identificou coordenação física e presença de palco acima da média em um atleta de esgrima olímpico de Hong Kong. Jennie (BLACKPINK) foi selecionada pela YG parcialmente por fluência em inglês após anos de residência na Nova Zelândia, considerada vantagem estratégica para a expansão global que a gravadora projetava. Nesses casos, a habilidade artística foi considerada desenvolvível; o diferencial inato era o fator determinante.
A SM Entertainment estimou publicamente, em comunicado de 2018, que apenas 1 em cada 200 candidatos avança para a fase de trainee formal. Das quatro grandes gravadoras, a YG Entertainment é historicamente a mais seletiva em volume de aprovações por ciclo de audição.
A Vida como Trainee
Trainees não firmam contratos de emprego — firmam contratos de desenvolvimento. A gravadora não paga salário; ao contrário, registra todos os custos como débito a ser recuperado via receitas futuras do artista ou do grupo. Isso inclui aulas de dança, canto, idiomas, alimentação nas instalações, material didático e, em muitos casos, moradia em dormitórios da gravadora. A rotina diária começa com aulas regulares de ensino médio ou fundamental — a legislação coreana obriga a manutenção da escolaridade para menores de 18 anos — e se estende por ensaios que frequentemente vão até as 23h ou além.
O sistema cria assimetria informacional deliberada. Trainees raramente sabem onde estão na hierarquia interna da gravadora até pouco antes do debut — as avaliações são periódicas e os resultados são confidenciais. Um trainee pode ser desligado sem aviso prévio independentemente do tempo investido. Amber Liu (f(x)) relatou em entrevistas ao Buzzfeed e à NME entre 2020 e 2022 que durante seu período como trainee na SM passava por avaliações semanais de peso e aparência física. A opacidade é estrutural: ela minimiza a probabilidade de que um trainee negocie condições ou transfira seu contrato para outra gravadora antes do debut, período em que o investimento da gravadora é mais elevado.
A duração do período de trainee varia consideravelmente entre artistas, mesmo dentro de um mesmo grupo. No BTS, V treinou cerca de seis meses antes do debut em junho de 2013 — o mais curto do grupo —, enquanto Suga acumulou aproximadamente três anos de treinamento. No aespa, Karina treinou cerca de quatro anos antes do debut em novembro de 2020. Baekhyun (EXO) é frequentemente citado como exceção: debutou com menos de um ano de treinamento após ser selecionado pela SM por habilidade vocal já desenvolvida fora do sistema convencional, evidenciando que o modelo acomoda trajetórias distintas quando o potencial técnico é avaliado como imediatamente explorável.
Baekhyun (EXO) é frequentemente citado como exceção: debutou com menos de 1 ano de treinamento após ser selecionado pela SM por habilidade vocal já desenvolvida fora do sistema de trainee convencional.
O Custo Financeiro do Treinamento
O débito de trainee é o aspecto financeiramente mais determinante do sistema. Quando um grupo debuta, a gravadora apresenta a cada membro um demonstrativo dos custos acumulados durante o período de treinamento. Esse valor é deduzido das receitas brutas antes de qualquer distribuição de royalties. Para grupos de grandes gravadoras com períodos de trainee longos, o débito inicial por membro pode alcançar ₩ 1,5 bilhão — cerca de US$ 1,1 milhão —, conforme relatos de ex-trainees e análises publicadas pelo Korea Economic Daily e pelo portal especializado Soompi.
O ritmo de amortização depende inteiramente do desempenho comercial do grupo. Grupos com debut bem-sucedido quitam o débito nos primeiros dois anos de atividade; grupos de menor desempenho podem percorrer todo o período do contrato — tipicamente sete anos nas grandes gravadoras — sem amortização integral. Esse mecanismo explica a densidade de atividades nos primeiros anos de um grupo recém-debutado: fansigns, eventos de fanmeet e shows de menor porte geram receita imediata mesmo enquanto os royalties de streaming e de vendas físicas continuam sendo aplicados ao abatimento do débito acumulado.
A legislação coreana foi revisada em resposta direta a conflitos judiciais. O processo mais significativo foi movido em 2009 por três membros do TVXQ — Jaejoong, Yoochun e Junsu — contra a SM Entertainment, contestando cláusulas de exclusividade com duração de 13 anos e a estrutura de divisão de receitas. O caso resultou em acordo judicial e impulsionou a Fair Trade Commission (FTC) a emitir diretrizes para contratos no entretenimento em 2009, atualizadas em 2017 e novamente em 2019. As atualizações mais recentes obrigam gravadoras a divulgar demonstrativos financeiros detalhados, estabelecer piso mínimo de receita para artistas ativos e permitir auditorias independentes solicitadas pelos próprios membros.
O processo TVXQ × SM Entertainment (2009) é o marco legal do K-pop em direito de artistas. O acordo resultou na saída de três membros e na formação do JYJ, e diretamente motivou a revisão das diretrizes contratuais pela Fair Trade Commission coreana.
Críticas e Controvérsias
As críticas mais documentadas ao sistema concentram-se em três áreas: bem-estar físico e mental, proteção de menores e desequilíbrio contratual. Em relação ao bem-estar, ex-trainees relataram em depoimentos públicos restrições alimentares impostas pelas gravadoras, proibição de relacionamentos afetivos — cláusula contratual comum denominada dating ban — e pressão das avaliações internas periódicas gerando quadros de ansiedade crônica. Amber Liu (f(x)) abordou o tema em entrevistas a múltiplos veículos entre 2020 e 2022, descrevendo avaliações semanais de peso e aparência física como parte da rotina ordinária de trainee na SM Entertainment.
A proteção de menores é área de regulamentação ativa, mas com lacunas significativas. Trainees com menos de 15 anos não podem, desde a revisão trabalhista de 2019, realizar atividades comerciais remuneradas — shows pagos, fansigns, gravações com remuneração. No entanto, o treinamento não é classificado como trabalho pela legislação coreana; portanto, a proteção não se aplica à rotina de ensaios. A FTC abriu investigações sobre contratos de trainee de menores em 2020 e 2021, resultando em exigências de ajuste em cláusulas de exclusividade da SM e da JYP para candidatos com menos de 16 anos.
O sistema também enfrenta crítica estrutural em relação à maioria silenciosa: os trainees que não debutam. Estimativas do setor sugerem que mais de 90% dos participantes encerram seus contratos sem debut em um grupo ativo. Esses indivíduos saem do sistema com habilidades desenvolvidas especificamente para uso da gravadora — repertórios de dança coreografados para grupos específicos, timbres vocais calibrados para conjuntos que não chegaram a existir — sem qualquer compensação financeira pelo período de formação. A questão é particularmente aguda para trainees estrangeiros que relocaram para Seul e não têm estrutura imediata de retorno ao país de origem.
Mais de 90% dos trainees encerram contratos sem debut em grupo ativo. A legislação atual não prevê compensação financeira pela formação recebida durante o período de treinamento para quem não chega ao debut — ponto central das propostas de revisão em tramitação na Assembleia Nacional coreana.
O Sistema em Transformação
A partir de 2020, as grandes gravadoras começaram a adaptar o modelo em resposta à pressão regulatória e à competição por talentos internacionais. A HYBE introduziu o Weverse Academy — plataforma de educação para potenciais trainees que não residem na Coreia —, reduzindo o custo de relocação como barreira de entrada. A JYP desenvolveu o NiziU Project (2019–2020) no Japão: um sistema de trainee local com debut no mercado japonês, evitando os custos de relocação para o candidato e permitindo operação em um mercado de consumo próprio, com fandom já familiarizado com o J-pop.
A ascensão de grupos formados via reality shows criou um modelo paralelo com características próprias. Programas como Produce 101 (Mnet, 2016) transferiram parte do processo de seleção para o público, reduzindo o risco financeiro da gravadora. Grupos formados nesse formato — IOI, Wanna One, IZ*ONE — operaram com contratos mais curtos (tipicamente 2,5 anos) e débito reduzido por já chegarem ao debut com fandom consolidado pela exposição televisiva. O modelo tem limitação estrutural: a gravadora retém menos controle sobre a longevidade do grupo, e os artistas retornam às gravadoras de origem após o contrato coletivo. O escândalo de manipulação de votos que encerrou o X1 em 2019 expôs adicionalmente a fragilidade de credibilidade do formato como mecanismo de seleção.
2012 K-Pop World Festival — apresentação do TVXQ em Changwon, Coreia. O grupo é o caso mais citado na história legal dos contratos de trainee. Crédito: Jeon Han / Korea.net / CC BY-SA 2.0Por Que o Sistema Persiste
O sistema de trainee persiste porque resolve um problema técnico real: produzir artistas com habilidades simultâneas em dança de nível profissional, canto ao vivo, performance de câmera e multilinguismo exige anos de formação especializada em ambiente integrado. Nenhuma estrutura ocidental equivalente existe fora do K-pop. A alternativa — contratar artistas já formados individualmente, como fazem selos ocidentais — produz artistas competentes em suas especialidades, mas raramente com a sincronização de conjunto que os grupos de K-pop exigem. A SM levou oito anos refinando o modelo com H.O.T, S.E.S e Shinhwa antes de exportá-lo com BoA (debut japonês em 2001) e TVXQ (debut em 2003).
Para os artistas que concluem o processo, o retorno potencial é significativo. aespa, IVE e NewJeans — três dos grupos mais comercialmente relevantes da 4ª geração — são produto direto do sistema, cada um com variações no período e na estrutura de treinamento. A crítica mais fundamentada não questiona a existência do modelo, mas suas lacunas de proteção: as salvaguardas para os artistas que não debutam — a maioria absoluta dos participantes — permanecem insuficientes mesmo após as reformas de 2017 e 2019. O debate regulatório continua ativo na Assembleia Nacional coreana, com propostas de reclassificação do treinamento como atividade laboral remunerável ainda em discussão.
A Assembleia Nacional da Coreia do Sul debate desde 2022 a reclassificação do treinamento em gravadoras como atividade laboral regulada, o que implicaria remuneração mínima obrigatória e proteções trabalhistas durante o período de formação — uma mudança que alteraria estruturalmente a economia do sistema.



