Dez anos. É quanto tempo Hwang Dong-hyuk passou tentando emplacar um roteiro que todo mundo recusava. Produtoras diziam que era sombrio demais, absurdo demais, caro demais. O diretor chegou a vender seu laptop pessoal para pagar as contas enquanto reescrevia o script pela décima vez. Então a Netflix apareceu. E o resto virou o maior lançamento da história do streaming.
Squid Game (오징어 게임, Ojingeo Game) estreou em setembro de 2021 e quebrou todos os recordes que existiam para quebrar. Não foi só uma questão de números — embora os números sejam absurdos. Foi o momento em que ficou impossível continuar tratando o conteúdo coreano como uma categoria exótica para quem já tinha esgotado o catálogo ocidental. O k-drama deixou de ser nicho. De vez. E Squid Game foi o divisor de águas.
Squid Game — imagem oficial Netflix / TMDB.O roteiro que ninguém queria
A história de bastidores de Squid Game é quase tão cruel quanto a série. Hwang Dong-hyuk escreveu o roteiro original em 2008, inspirado em sua própria situação financeira — ele e sua família estavam endividados, e ele se via lendo manhwa de sobrevivência em bancas de revistas porque não tinha como comprar livros. A identificação com personagens desesperados, dispostos a arriscar tudo por dinheiro, era visceral e pessoal.
Por uma década, o projeto circulou por produtoras coreanas sem encontrar financiamento. O conceito era considerado muito violento, muito cínico, muito difícil de vender. Quando a Netflix começou a investir pesado em produções originais asiáticas — após o sucesso de Parasita no Oscar de 2019 ter jogado luz no cinema coreano — o terreno finalmente estava preparado. A plataforma disse sim onde todos tinham dito não. E Hwang Dong-hyuk, aos 51 anos, virou um nome que o mundo inteiro passou a reconhecer.
Eu estava em situação financeira tão ruim quanto os personagens da série. Comecei a ler manhwa de sobrevivência porque não podia comprar livros. Eu me identifiquei profundamente com essas histórias.
Hwang Dong-hyuk chegou a vender seu laptop pessoal durante o processo de desenvolvimento do roteiro. O projeto ficou dez anos na gaveta antes da Netflix dar o sinal verde.
O que a primeira temporada acertou
Squid Game funciona porque resolve um problema difícil: como fazer uma história sobre desigualdade de classe sem parecer panfletária. A resposta de Hwang foi usar jogos infantis coreanos — o ddakji, o gganbu, a amarelinha — como estrutura. Isso faz duas coisas ao mesmo tempo. Primeiro, cria um contraste visceral entre a inocência da infância e a violência adulta que deixa o espectador desconfortável do jeito certo. Segundo, ancora a série numa especificidade cultural que paradoxalmente amplia o alcance: as pessoas ao redor do mundo reconhecem o *sentimento* dos jogos, mesmo sem conhecer os nomes.
O elenco foi outro acerto cirúrgico. Lee Jung-jae como Seong Gi-hun entregou um personagem que é simultaneamente patético e simpático — um perdedor crônico com uma bondade residual que não foi totalmente destruída pelas circunstâncias. Park Hae-soo como o cerebral e calculista Cho Sang-woo trouxe a tensão moral da série: o quanto você sacrifica de si mesmo para sobreviver? E HoYeon Jung como Kang Sae-byeok, uma desertora norte-coreana sem lugar no mundo, roubou cenas com uma atuação que era quase toda silêncio. O trio funcionou porque cada um representava uma resposta diferente à mesma pergunta impossível.
Squid Game acumulou 1,65 bilhão de horas assistidas nos primeiros 28 dias após o lançamento — o maior número da história da Netflix até aquele momento.
A série também acertou no ritmo. Cada episódio termina num ponto de inflexão real — não no artifício barato de cortar no clímax — e os personagens secundários têm arcos completos o suficiente para que suas mortes importem. É uma escrita econômica, que não desperdiça tempo de tela. Numa era de séries infladas, essa compressão foi refrescante.
A explosão cultural: dalgona, luz vermelha e uniformes verdes
Poucos fenômenos culturais conseguem se traduzir em comportamento físico. Squid Game conseguiu. Crianças em parques ao redor do mundo começaram a jogar 'luz verde, luz vermelha' da noite para o dia. O dalgona — aquele doce coreano de caramelo perfurado que existia em becos de Seul desde os anos 70 — virou tendência global no TikTok. Cozinheiros caseiros tentavam replicar a receita. Confeitarias coreanas em São Paulo esgotaram estoque. Um doce que nunca tinha saído da Coreia de repente estava em todo lugar.
Você sabia?
O dalgona (달고나) é um doce de rua coreano feito de açúcar derretido com bicarbonato. Vendedores ambulantes usavam moldes para criar formas — círculo, triângulo, estrela — e o desafio era recortar a forma sem quebrá-la. Depois de Squid Game, a tendência #dalgona no TikTok acumulou bilhões de visualizações e o doce passou a ser vendido em lojas de conveniência em mais de 40 países.
Isso importa culturalmente porque é diferente do que aconteceu com outros k-dramas populares. Séries como My Love from the Star ou Descendants of the Sun geraram paixão intensa em fãs do gênero, mas não saíram do circuito de quem já era iniciado no k-drama. Squid Game entrou pela porta de quem nunca tinha assistido nada coreano. Pessoas que nunca tinham ouvido falar de hallyu de repente queriam entender o que era aquele doce, quem eram aqueles atores, onde podiam encontrar mais séries como aquela. O funil de entrada para o conteúdo coreano nunca foi tão largo.
Os Emmys e o que eles significam de verdade
Em setembro de 2022, Squid Game ganhou 6 Emmys, incluindo Melhor Série Dramática — o prêmio mais importante da televisão americana — e Melhor Ator em Série Dramática para Lee Jung-jae. Nenhuma série em língua não inglesa tinha vencido essas categorias antes. Para entender o peso: o Emmy existe desde 1949. Em 73 anos, nenhum programa feito fora dos Estados Unidos ou Reino Unido tinha chegado nem perto de Melhor Drama.
Lee Jung-jae se tornou o primeiro ator coreano — e o primeiro ator asiático em papel principal — a vencer o Emmy de Melhor Ator em Série Dramática. A série também ganhou Melhor Direção e Melhor Roteiro, ambos para Hwang Dong-hyuk.
Tem um ponto que merece análise direta: os Emmys não significam que Squid Game é objetivamente a melhor série do ano. Os Emmys raramente acertam isso. O que eles significam é que a academia americana de televisão — historicamente paroquial ao extremo — não conseguiu mais ignorar o que estava acontecendo. Squid Game não apenas venceu; venceu nas categorias que as grandes produções de Hollywood disputam com orçamentos dez vezes maiores. Foi um sinal para a indústria, não só para os fãs. Qualquer estúdio que ainda via o streaming asiático como produto secundário precisou rever essa posição depois de setembro de 2022.
Nunca imaginei ganhar um Emmy. Não sabia bem o que era até pesquisar quando me indicaram. Mas entendi a importância quando vi o que significava para atores coreanos e para a indústria.
“Em 73 anos de história, nenhum programa fora dos EUA ou Reino Unido tinha vencido o Emmy de Melhor Série Dramática. Squid Game mudou isso em 2022.”
— Emmy Awards, 2022
Temporada 2: o peso de voltar
Três anos depois, em dezembro de 2024, Squid Game voltou. As expectativas eram de um nível que nenhuma série poderia satisfazer completamente — e Hwang Dong-hyuk sabia disso. A segunda temporada fez escolhas deliberadas que agradaram parte do público e irritaram outra. A mais controversa: transformar Gi-hun, o protagonista que sobreviveu e ficou traumatizado na primeira temporada, num infiltrado que volta aos jogos para destruí-los de dentro. É uma mudança de arquétipo. Ele não é mais a vítima; é o agente.
Essa virada funcionou bem em partes. A expansão do papel de Gong Yoo como o Recrutador — aquele homem misterioso do ddakji que aparecia em estações de metrô — foi um dos maiores acertos da temporada. O personagem, que na primeira temporada era quase uma aparição, ganhou textura e motivação. A dinâmica entre ele e Gi-hun nas sequências de abertura tem uma tensão diferente: não é mais o encontro aleatório entre um desesperado e um recrutador, mas um duelo entre dois homens que entendem o jogo de formas opostas.
Você sabia?
Gong Yoo, que interpreta o Recrutador em Squid Game, é um dos atores mais reconhecidos do k-drama mundial, conhecido principalmente por Goblin (2016) e Estação de Zumbis: Trem para Busan (2016). Sua participação expandida na segunda temporada foi uma das adições mais bem-recebidas pela crítica.
As críticas legítimas à segunda temporada merecem ser reconhecidas sem condescendência. O ritmo é mais lento. Alguns novos personagens não têm tempo de tela suficiente para criar o apego emocional que os personagens da primeira temporada criaram. E — a crítica mais comum — a temporada termina de forma abrupta, claramente funcionando como primeira metade de uma história que só será concluída na terceira temporada, já anunciada para 2025. Isso cria uma experiência fragmentada para quem assiste em 2024 sem querer esperar.
A segunda temporada foi produzida em conjunto com a terceira, funcionando essencialmente como uma história dividida em dois. Quem esperava resolução narrativa completa ficou frustrado — a sensação de 'setup sem payoff' é real e intencional.
Dito isso: a segunda temporada ainda quebrou recordes de audiência da Netflix. A série manteve poder de atração que poucos títulos conseguem sustentar depois de tanto tempo fora do ar. O fato de que as comparações são com a própria primeira temporada — talvez a maior estreia da história do streaming — coloca a discussão num contexto específico. Uma temporada 'decepcionante' de Squid Game ainda é um fenômeno por qualquer outro padrão.
O que a terceira temporada precisa fazer
Com a terceira e última temporada chegando em 2025, Hwang Dong-hyuk tem uma tarefa clara: fechar o arco de Gi-hun de forma que justifique a escolha narrativa da segunda temporada. A pergunta que a série deixou aberta não é sobre os jogos em si — é sobre o que um homem que viu o pior da humanidade faz com essa informação. Gi-hun poderia ter ido embora. Escolheu voltar. A série precisa responder se isso foi coragem ou outra forma de fuga.
Existe também uma expectativa de que a terceira temporada expanda a mitologia dos jogos — quem são os organizadores, qual é a estrutura por trás, qual é a lógica que sustenta um sistema onde bilionários assistem pessoas desesperadas se matarem por dinheiro. A primeira temporada flertou com essa questão através do Jogador 001 (Oh Il-nam) mas não aprofundou. Há território narrativo intacto. Se Hwang usá-lo bem, a trilogia pode terminar como uma das melhores obras de ficção científica social da década. Se apressar o encerramento, corre o risco de diluir o legado.
O que Squid Game significa para o hallyu
O hallyu — a onda cultural coreana — vinha crescendo de forma consistente desde os anos 2000, impulsionado por k-dramas, k-pop e, mais recentemente, pelo cinema. Mas havia um teto implícito: o hallyu era um fenômeno de nicho global, enorme dentro do seu segmento, mas ainda percebido como produto especializado. Parasita quebrou esse teto no cinema. Squid Game quebrou no streaming.
A diferença entre os dois é de alcance. Parasita foi visto por dezenas de milhões de pessoas ao longo de meses, chegando a plateias que frequentam cinemas de arte. Squid Game foi visto por centenas de milhões de pessoas em semanas, chegando a quem assistia séries de ação enquanto jantava. São audiências muito diferentes, com implicações muito diferentes para o mercado. Produtoras coreanas que antes dependiam exclusivamente do mercado asiático passaram a negociar co-produções com Hollywood. Atores e diretores que trabalhavam apenas em coreano começaram a ser cortejados por estúdios americanos e europeus.
Após Squid Game, a Netflix aumentou significativamente seu investimento em produções originais coreanas. Entre 2022 e 2024, a plataforma lançou dezenas de k-dramas originais, incluindo títulos como The Glory, Mask Girl e Black Knight — todos aproveitando a demanda global criada pelo sucesso de Squid Game.
Mas o impacto mais profundo talvez seja na percepção da audiência global sobre o que conteúdo não anglófono pode fazer. Existe uma hierarquia implícita no consumo de mídia: produções americanas e britânicas no topo, tudo o mais como opção secundária para quem já 'esgotou' o catálogo principal. Squid Game não apenas competiu com essa hierarquia — a tornou irrelevante para uma geração inteira de espectadores. Jovens que assistiram à série em 2021 com 16, 17 anos cresceram sem o preconceito das legendas. Para eles, o conteúdo coreano simplesmente faz parte do menu normal. Essa mudança de percepção é mais importante do que qualquer número de audiência.
Se você quer entender por onde começar no k-drama além de Squid Game, o catálogo é vasto e variado — há obras que exploram os mesmos temas sociais com abordagens completamente diferentes. E se o que prendeu foi a qualidade da atuação, vale acompanhar as carreiras de Lee Jung-jae e do elenco em outros trabalhos. A série abriu uma porta. O que existe do outro lado merece ser explorado.
Veredicto
Squid Game é uma série boa que aconteceu no momento certo com a mensagem certa. A desigualdade econômica, o desespero de pessoas que o sistema abandonou, a hipocrisia de quem assiste ao sofrimento alheio como entretenimento — esses temas não são específicos da Coreia do Sul. São universais vestidos com roupas coreanas. E o mundo reconheceu isso imediatamente.
A segunda temporada mostrou que nenhuma série escapa do peso de suas próprias expectativas. Mas mostrou também que Hwang Dong-hyuk não está interessado em repetir a fórmula — está tentando contar uma história maior, mesmo que isso custe a satisfação imediata do espectador. É uma aposta arriscada. A terceira temporada vai dizer se valeu a pena. Até lá, o legado da primeira temporada já está inscrito na história da televisão global. Dez anos de recusa e um laptop vendido produziram algo que ninguém conseguia prever e que todo mundo, olhando para trás, parece inevitável.
Espero que esta série seja um ponto de partida para que mais conteúdo coreano seja descoberto pelo mundo. Nós temos muitas histórias boas para contar.



